Reportagens
São Paulo, 450 anos e 15 gerações de paulistanos
29/01/2005
José Roberto de Toledo
Especial para a Folha de S.Paulo
Quando Salvador Pires foi eleito procurador do Conselho da recém-criada vila de São Paulo, em 1563, menos de mil pessoas habitavam os Campos de Piratininga, dos quais pouco mais de uma centena eram de origem européia. Olhando as cerca de cem casas com paredes de taipa e cobertura de sapé, o novo procurador jamais poderia imaginar que, 13 gerações depois, um descendente seu ocuparia cargo semelhante na mesma Câmara, só que em uma cidade com 10 milhões de habitantes e 3 milhões de domicílios.
A descendência de Salvador Pires chegou até o senador Eduardo Matarazzo Suplicy, embora tão bem escondida entre sobrenomes italianos e franceses que nem o próprio parlamentar desconfiasse dela. Presidente da Câmara Municipal de São Paulo de 1989 a 1991, Suplicy conhecia os seus antepassados europeus, mas surpreendeu-se ao ser alertado pela reportagem que é também o que se costuma chamar de “quatrocentão”.
Assim como o senador, milhões de outros brasileiros descendem de um dos pioneiros que habitavam a São Paulo de Piratininga do século 16. A estimativa é do professor emérito da UFRJ e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, Francisco Antonio Doria. Físico e matemático, Doria investe suas horas vagas em pesquisas genealógicas. O hobby já rendeu dois livros: “Os Herdeiros do Poder” e “Caramuru e Catarina”. Foi ele quem descobriu os antepassados remotos de Suplicy e de dezenas de outros poderosos.
O matemático-genealogista faz um cálculo simples: cerca de 3 filhos sobreviventes por casal (estimando-se por baixo, para compensar os casamentos entre parentes) elevado a 15, que é o número de gerações nascidas no Brasil. O resultado chega à casa dos 15 milhões de pessoas. Esses descendentes se espalharam por boa parte do sul e centro do país, de Minas Gerais ao Rio Grande do Sul, do litoral até os sertões de Mato Grosso e Goiás.
Daí Doria chamar os pioneiros paulistanos de “pais fundadores”. Ele desmistifica, assim, o conceito de que os “quatrocentões” se restrigem a umas poucas famílias endogâmicas e poderosas, únicas herdeiras dos genes desses primeiros habitantes do planalto paulista.
Como lembra Maria Luiza Marcílio, professora titular do Departamento de História da USP, o termo “quatrocentão” foi cunhado no início do século 20 pela tradicional elite paulistana. Ele visava discriminar os milhares de emergentes imigrantes europeus que ensaiavam formar uma nova elite, baseada não na herança da terra, mas, como no caso dos Matarazzo, na incipiente indústria, ou no dos Suplicy, na exportação de café.
A despeito da resistência inicial de alguns “quatrocentões”, a miscigenação paulistana se perpetuou. Após misturar portugueses e índios, espanhóis e judeus conversos, degredados e membros da baixa nobreza nos séculos 16 e 17, a tradição mameluca acabou integrando as novas levas de italianos, espanhóis, alemães e japoneses dos séculos 19 e 20.
“Não se formaram guetos na cidade, apesar de haver bairros com presenças étnicas muito fortes. Havia preponderância (como de italianos no Brás), mas a população se mesclava”, aponta Marcílio, que é autora de, entre outros livros, “A Cidade de São Paulo – Povoamento e População”.
Não que o preconceito não existisse. Chamar descendentes italianos de “carcamanos” é um resquício da intolerância daquela época. Mas Filomena Matarazzo Suplicy, 95 anos recém-completados, é a prova de que a resistência começou a ser superada ainda nos primeiros anos do século passado. O casamento de sua mãe, Amália Cintra Ferreira, com Andrea Matarazzo foi um dos primeiros a unir italianos e paulistanos tradicionais.
Ela conta que a elite emergente morava na avenida Paulista e em seus arredores, enquanto as famílias ricas mais antigas tinham seus casarões em Higienópolis e nos Campos Elíseos. A interação social se dava nas matinês do Cine República, nos chás da tarde da Confeitaria Vienense e nos passeios noturnos pela recém-inaugurada Paulista. Os passeios, frisa a mãe do senador Suplicy, eram sempre a pé –o que não é de espantar, já que havia apenas 16 automóveis registrados em São Paulo em 1903.
Os almoços das quintas-feiras eram especiais na infância de Filomena. Seu avô, o conde Francisco Matarazzo, fundador do que era então o maior complexo industrial da América do Sul, levava toda a família para uma de suas fábricas. Eram 13 filhos e dezenas de netos e sobrinhos que comiam junto com centenas de operários em tábuas sobrepostas a cavaletes. Como em casa, as conversas eram predominante em italiano, já que o conde privilegiava seus conterrâneos na hora de contratar mão-de-obra.
E italianos era o que não faltava. De 5.717 em 1886 eles passaram a 91.544 em 1920 na cidade. Por essa época, São Paulo era a capital brasileira com o maior proporção de estrangeiros: 35% de sua população (205 mil pessoas) nascera em outro país.
Se os imigrantes se integravam socialmente, o mesmo não acontecia com os descendentes de escravos. Após a abolição, os negros, que chegaram a ser 30% da população da cidade no fim do século 18, se tornaram muito poucos. Aqueles que deixaram as fazendas não encontraram forma de sobrevivência na cidade, conta Maria Luiza Marcílio, e ficaram restritos aos cortiços e às periferias do sistema.
A discriminação era brutal. “Não eram aceitos nas escolas nem nas indústrias. Ficaram relegados às profissões mais humildes, como a limpeza urbana e as funções domésticas”, afirma a historiadora. “E os que não encontravam emprego tiveram que se dedicar à mendicância e ao crime” – o que só fez reforçar o preconceito.
Nem nos livros os negros tiveram vez. Nos nove volumes da “Genealogia Paulistana”, escrita por Silva Leme há pouco menos de cem anos, encontram-se ancestrais paulistas de quase todas as origens, menos africanos. E isso, diz Francisco Antonio Doria, a despeito de Silva Leme ter uma cabeça que poderia ser considerada aberta para os padrões da época, dando pouca ênfase às pretensões nobiliárquicas que acometem muitos autores de genealogias. “Índios e imigrantes passavam (pelo filtro do autor), mas negros não”, resume.
Se as eventuais raízes negras dos “quatrocentões” foram apagadas, a mescla de genes tupiniquins e europeus ficou registrada em documentos da época. Tome-se o velho procurador Salvador Pires. Nascido no Porto (Portugal), emigrou para São Vicente, mudou-se para São Bernardo da Borda do Campo e fixou-se em São Paulo logo após a sua fundação. Lá ganhava a vida como marceneiro e fez, em 1575, as portas e móveis da primeira Casa da Câmara.
Um de seus filhos herdou do pai o nome e uma sesmaria junto ao rio Tietê, onde cultivava uvas e produzia vinho. Este Salvador Pires, o moço, casou duas vezes, uma delas com Mécia Fernandes. A despeito do nome cristão, sua mulher era mais conhecida por Meciaçu – apelido tupi que indica duas coisas: ser ela bisneta do cacique Piquerobi da aldeia do Ururaí (onde fica hoje o distrito de São Miguel Paulista), e um tamanho avantajado (“açu” em tupi significa “grande”).
Como lembra Francisco Doria, embora o português fosse a idioma oficial e registrado pelos documentos, o tupi, na sua forma adaptada pelos mamelucos e chamada de nhengatu, foi a língua da intimidade de quase todos paulistas até o final do século 17.
Os descendentes de Salvador Pires continuaram subindo o rio Tietê e, em meados do século 17, acabaram se fixando na recém-fundada vila de Santana de Parnaíba. Uma das razões para a mudança foi a guerra iniciada em 1641 entre os Pires e os Camargo por conta do assassinato de Pedro Taques de Almeida em pleno largo da Sé. O golpe fatal de adaga foi atribuído a Fernando de Camargo e, a partir daí, as duas famílias e seus aliados iniciaram uma luta que perdurou por décadas e dividiu ao meio a população paulistana.
Nos dois séculos seguintes uma parte dos descendentes de Salvador Pires distanciou-se cada vez mais da vila de São Paulo. Alguns acabaram em Minas Gerais durante a febre do ouro do século 18. Não foram os únicos. Até cerca de 1870, quando a conjunção do café e das ferrovias voltaria a atrair novos habitantes, o planalto paulistano viveu 200 anos de estagnação. De 1660 a 1854, sua população oscilou de 6 mil para 32 mil habitantes.
Apenas com a chegada das levas de europeus a partir da década de 1880 a cidade romperia os limites da antiga colina escolhida pelos jesuítas para construir seu colégio e começaria a ocupar as áreas além dos rios Tamanduateí e Anhangabaú. O crescimento econômico atraiu também brasileiros de outras regiões, inclusive descendentes de Salvador Pires. No século 20, a volta dos emigrados e, principalmente, a chegada de novos imigrantes proporcionaria a São Paulo o maior crescimento entre todas as grandes cidades do mundo.
Nessas levas de imigrantes brasileiros vieram também famílias que, a despeito dos sobrenomes de sonoridade estrangeira, já habitavam outras regiões do Brasil. São os casos dos Suplicy, cujo primeiro ancestral se radicara no Paraná, e dos Smith de Vasconcellos, que emigraram do Ceará. As duas famílias se uniriam no casamento do futuro senador Eduardo Matarazzo Suplicy com a futura prefeita paulista Marta Teresa Smith de Vasconcellos. Deles nasceria a 15a. geração de paulistanos, cujo filho mais famoso é o cantor Eduardo Smith Suplicy, o Supla. |