Home

História

Genealogia

Reportagens

Jornalismo/RAC

Quem sou

História
Nova pesquisa reescreve história dos Toledo Piza

28/01/2005

Baía de Angra (Ilha Terceira dos Açores) vista a partir do Monte Brasil


por José Roberto de Toledo

Por cerca de 250 anos se acreditou que o ramo brasileiro da família Toledo Piza descendia de militares espanhóis que foram diretamente da Espanha para os Açores e, de lá, para São Paulo. A fonte da informação era a Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica, de Pedro Taques de Almeida Paes Leme. O genealogista se baseou quase que exclusivamente na memória oral, já que os documentos da família que tinha em seu poder se perderam no terremoto de Lisboa, em 1755.

Mais de dois séculos depois, a história começa a ser recontada, agora com bases documentais. Pesquisas realizadas pessoalmente nos arquivos da Ilha Terceira dos Açores revelam erros e omissões importantes na versão de Pedro Taques. Traído pela memória, ele trocou nomes, subtraiu gerações e confundiu as origens dos ancestrais. De mais surpreendente, os registros revelam que a trajetória dos Toledo Piza teve um inesperado desvio pelo México antes de chegar aos Açores e ao Brasil.

O primeiro dessa família a desembarcar em terras brasileiras foi dom Simão de Toledo Piza. As novas pesquisas mostram que ele nasceu em 1612 em Angra, Ilha Terceira dos Açores, e lá foi batizado no dia 4 de novembro, na igreja da Sé. Diferentemente do que escreveu Pedro Taques, seus pais foram dom Juan Castelhanos de Piza e dona Gracia da Fonseca (Livro de Baptismos da Sé de Angra 1608 a 1618, página 81). Foram padrinhos o tenente Domingos Pastrana e dona Juliana, filha do capitão Lombreiros. Essa data e registro não constavam da obra de Pedro Taques e tampouco nas dos autores e genealogista que nele se basearam. Eis o que diz o registro:

Em os quatro dias de novembro de seiscentos e doze anos de nossa licença batizou Manoel Duarte da Motta vigário geral a Simão filho de Dom Joam de Pissa e de sua mulher Dona Gracia da Fonsequa Foram padrinhos o tenente Domingos Pastrana e dona Julhiana filha do capitão Lombreira e por ser verdade fiz e assinei
Balthazar Machado.


A descoberta do registro de nascimento de dom Simão levou a outros achados. Documentos do Arquivo de Simancas (Espanha) provam que dom Juan Castelhanos de Piza participou da invasão da Ilha Terceira. Ele estava na armada espanhola comandada pelo Marquês de Santa Cruz em 1583. Sua atuação mereceu o reconhecimento de seus superiores em uma relação dos soldados que demonstraram mais valor na batalha. Ao vencerem, os castelhanos acabaram com o último bastião da resistência à união das duas coroas ibéricas sobre a cabeça um único rei, Felipe 2o da Espanha.

Em dezembro de 1586 dom Juan ainda ocupava a posição de alferes na companhia do capitão Francisco Angel e tinha a receber 38 escudos e 2 reais de soldo. Não era muito dinheiro. Ao seu capitão, por exemplo, a Coroa devia uma importância cinco vezes maior, enquanto o oficial imediatamente superior a dom Juan, o sargento Rodrigo Lopes de Haro, receberia quase o dobro. Na verdade, seu crédito era menor do que a média do os 171 soldados da companhia tinham algo a receber, cerca de 46 escudos cada um. Esta e outras companhias formavam o terço de infantaria que permanecera na Ilha Tereira sob o comando do mestre-de-campo dom Juan de Urbina.

Na versão de Pedro Taques, o “herói” se chamava dom Simão de Toledo Piza, como o filho. O genealogista o promove a sargento-mór, além de atribuir-lhe uma carreira militar que inclui sua suposta participação na batalha naval de Lepanto, a maior do século 16 e que estancou o avanço turco sobre a Europa. O problema dessa afirmação de Pedro Taques é que a destruição da armada otomana pela frota comandada por dom João de Áustria ocorreu em 7 de outubro de 1571, quando dom Juan ainda devia ser uma criança. Mesmo que tenha sido pai aos 60 anos, seria improvável que, a despeito do título de dom, Juan de Piza estacionasse na modesta patente de alferes após ter participado com bravura das batalhas mais importantes de seu tempo. Salvo ainda se fosse um jovem aspirante em 1586.

Pedro Taques vai mais longe, e confere a dom Simão, o filho, o comando do Castelo de São Filipe. Errou de novo. O nome de Simão de Toledo Piza não consta de nenhum dos documentos que relacionam os governadores do castelo entre seu nascimento, em 1612, e o seu casamento em São Paulo, em janeiro de 1640. De todas as afirmações de Pedro Taques sobre a família Toledo Piza que não se encontram documentadas, a que mais chances tem de ser verdadeira é a filiação da mãe de dom Simão à família Rodovalho, uma das mais tradicionais da Ilha Terceira.

Embora sua mãe, Gracia da Fonseca, não ostente esse sobrenome nos registros e tampouco apareça nas genealogias dos Rodovalhos açorianos, a repetição do apelido em sucessivas gerações de descendentes de dom Simão no Brasil indica que a ligação deve ter existido, embora ainda careça de comprovação documental. Gracia não assina Rodovalho nem em seu casamento, como se vê a seguir.

Graças à gentileza e competência do genealogista João Ventura, vinculado ao Centro de Conhecimento dos Açores, foi localizado nos livros da Sé de Angra o registro de casamento dos pais de dom Simão. Sua transcrição apresenta as revelações mais inesperadas.

Em os 21 dias do mes de Janeiro de 99 annios, em todo gardada a forma concilio tridentino, de nossa licença, (casou) o arcediago Manoel Gonçalves, a Dom Joam Castelhanos de Piza, viuvo, filho de Joam de Toledo Piza e de Dona Anna Castelhanos, sua mulher, naturais das Indias de Nova Espanha, vezinhos de Guaxaca, com Dona Gracia da Fonseca, filha de Thome Gomes e de Gracia da Fonceca, ja defunctos, naturais desta Cidade, da freigezia da Sée, testemunhas prezentes Pedro Rodrigues, Artur d'Azevedo, o conego Joam Tavares, o padre Antonio Pereira et por passar na verdade fis este, dia, mes e anno ut supra.
Nicolao Cardozo Telles


Como se vê, dom Juan e dona Gracia casaram-se em 1599, na Sé de Angra. Os fatos de ele ser viúvo e de os pais dela já estarem mortos reforçam a hipótese de que o noivo já não era jovem quando se casou. Certamente já passara dos 30 anos, ou não teria tido idade suficiente para participar da batalha de 1583.

Desse assento constam os nomes dos pais de ambos e suas origens geográficas. A noiva era filha de Thomé Gomes e de Gracia da Fonseca, ambos já mortos, mas relacionados como antigos fregueses da Sé de Angra.

O noivo era filho de dom Juan de Toledo Piza e de dona Ana Castelhanos. Surpreendentemente, ambos são descritos como vizinhos de Guaxaca, nas Índias de Nova Espanha. Isso significa que eram moradores de uma região que atualmente se chama Oaxaca, localizada no sul do México, junto ao Pacífico. Esse fato jamais havia sido mencionado por Pedro Taques ou por linhagistas posteriores.

O vale do Oaxaca foi habitado durante milhares de anos por um mix de civilizações, notadamente os Zapotec, os Mixtec e os Mixe. Por volta de 1436 a área foi ocupada pelos Aztecas. Logo depois que esses foram derrotados por Hernán Cortez, o vale passou aos domínios de Castela e os milhares de anos de cultura nativa foram se apagando. Até o nome nativo original do lugar, Huaxyácac, acabou corrompido pelo uso. O primeiro povoado espanhol lá estabelecido foi Segura de la Frontera, em 1521, mais tarde conhecido como Nueva Antequera. Em 1532 a vila foi elevada a cidade real por decreto do imperador Carlos 5o, com o nome de Antequera de Guaxaca.

Foi nessa cidade do Novo Mundo que dom Juan de Toledo Piza e sua mulher acabaram por se fixar. Não sabemos, ainda, se o casal nasceu lá, nem se lá morreu. Mas apenas o fato de serem vizinhos da vila de Antequera de Guaxaca é um fato inusitado sobre a trajetória dos Toledo Piza brasileiros. Novas pesquisas mostram que eles tiveram pelo menos mais uma filha, que se casou e teve filhos, deixando extensa geração no México.

Na versão consagrada pelos livros genealógicos brasileiros, dom Juan de Toledo Piza era espanhol, aparentado dos Álvares de Toledo da casa dos Duques de Alba. Essa foi, durante o período filipino, a família militarmente mais poderosa de Castela. Seus duques comandaram, entre outras batalhas, a invasão de Portugal em 1581, a violenta repressão às revoltas protestantes das províncias que hoje formam a Holanda no final do século 16 e a reconquista de Salvador aos holandeses em 1627. Sabemos que um dessa família ocupou o cargo de governador das possessões espanholas no Novo Mundo. Mas, todovia, os laços de sangue entre os Álvares de Toledo e os Toledo Piza ainda carecem de provas documentais.

A pesquisa continua e, em um futuro não muito distante, um novo pedaço dessa história poderá ser contado.
 

 


Copyright, ArquivoZ, 2005 | Termos de uso | Contato